O homem e a incontinência urinária

O estigma associado à incontinência urinária muitas vezes impede o homem de procurar assistência médica e é muito mais comum do que muitas vezes se pensa, embora seja menos frequente do que na mulher. Podem ser afectados homens de todas as idades.

A incidência da incontinência urinária entre homens de 50 anos comparada com mulheres da mesma idade é menor, no entanto, estima-se que mais de 190.000 homens são afectados por problemas urinários em Portugal. A incidência masculina aumenta com a idade, mas não aumenta apenas em função da idade, estando directamente relacionada com outras enfermidades como inchaço da próstata, cancro da próstata e condições neurológicas como a doença de Parkinson e de Alzheimer. Em menor extensão, a incidência da diabetes e de peso em excesso, assim como outros factores de risco, aumentam a incidência da incontinência urinária no homem.

Os tratamentos abaixo são sugeridos para utentes com uma incontinência sem complicações, ou seja, sem incontinência recorrente ou incontinência associada a dor, hematúria, infecção recorrente, problemas de esvaziamento, irradiação da próstata, ou cirurgia pélvica radical. Aos utentes que apresentem estes sintomas recomenda-se que consultem de imediato um urologista.

ANÁLISE DE DIAGNÓSTICO

A incontinência masculina pode ser dividida em grupos sintomáticos, o que poderá ajudar na análise. Os homens com gotejamento pós-micção podem ser ajudados com exercícios para os músculos do pavimento pélvico e por ordenha uretral. No homem, a incontinência urinária de esforço (IUE) ocorre sobretudo após uma cirurgia à próstata, enquanto a incontinência de urgência (IUU) muitas vezes envolve inchaço da próstata ou hipertrofia prostática benigna (HPB), obstrução ou outro processo cirúrgico como a ressecção do intestino. O termo incontinência mista aplica-se quando ambos os sintomas estão presentes.

Deve ser elaborado um historial para determinar a natureza da incontinência, tomando nota de quaisquer cirurgias anteriores, e de outras enfermidades ou medicações.

O exame físico deve incluir a procura de pedras no abdómen/bexiga, divertículos ou tumores, oclusão intestinal no recto, estado do sistema sacro-neurológico e sistema nervoso central, para incluir a saúde mental e outros factores neurológicos. Deve ser feita ainda uma análise à urina para excluir infecção e hematúria. Deve então tratar-se quaisquer infecções e fazer uma nova avaliação.

A qualidade de vida deve também ser avaliada para determinar o impacto da incontinência no indivíduo e ao mesmo tempo avaliar a mobilidade e o acesso ao WC.

INCONTINÊNCIA URINÁRIA DE ESFORÇO (PÓS-PROSTATECTOMIA)

No homem a incontinência urinária de esforço ocorre geralmente após uma cirurgia à próstata, embora não seja desconhecida noutras circunstâncias, e consiste na perda involuntária de urina durante uma actividade como tossir, correr, saltar, etc., diferindo de pessoa para pessoa. Alguns indivíduos apenas perderão uma pequena quantidade de urina esporadicamente, possivelmente durante um curto período de tempo, ao passo que outros poderão perder urina constantemente e por longos períodos de tempo. Muitos recuperam da incontinência por completo mediante um tratamento adequado.

ALTERNATIVAS DE TRATAMENTO

Estilo de vida

Rever o estilo de vida quanto à ingestão de alimentos e de líquidos, redução do peso e do redução ou cessação do consumo de tabaco. As pessoas com excesso de peso têm uma maior pressão abdominal. Os fumadores tossem mais, o que pode resultar numa maior incidência de perdas de urina.

  • Não ingerir líquidos em demasia nem insuficientemente. Reduzir a ingestão de líquidos para diminuir a urina pode produzir uma maior irritação da bexiga e promover uma infecção.
  • Evitar a cafeína e bebidas gaseificadas, que podem irritar a bexiga, e bebidas alcoólicas.
  • Rever a medicação actual quanto a interacção ou efeitos iatrogénicos.

Exercícios para os músculos do pavimento pélvico

Os exercícios para os músculos do pavimento pélvico são o tratamento mais eficaz para a incontinência urinária pós-prostatectomia. Combinados com exercícios diários de treino e esvaziamento da bexiga, muitos conseguem uma continência completa, desde que não tenha havido danos no esfíncter uretral durante a cirurgia. O biofeedback e a electro-estimulação ajudam na execução de exercícios para os músculos do pavimento pélvico e idealmente devem ser recomendados por um fisioterapeuta ou por um profissional em incontinência. Foram realizados estudos para analisar o papel do biofeedback e da electro-estimulação na incontinência urinária pós-prostatectomia e em muitos casos revelaram-se benéficos.

Treino vesical ou da bexiga

O treino da bexiga também pode ser útil após uma cirurgia prostática se o homem sofrer de incontinência de urgência. Quantidades de urina cada vez maiores são retidas na bexiga durante espaços de tempo controlados, para aumentar a capacidade da bexiga. O objectivo é quebrar o ciclo de frequência da incontinência de urgência. Um fisioterapeuta especializado pode ajudar neste treino.

Dispositivos médicos

Os produtos absorventes para incontinência destinados ao homem têm a forma de bolsas, colectores de urina e pensos. Muitos produtos descartáveis utilizam tecnologia para transformar a urina numa substância semelhante a um gel, para que ela fique retida no penso e para reduzir as possibilidades de fugas. Um estudo recente analisou a eficácia de vários produtos absorventes para o homem.

Os cateteres podem ser utilizados como uma medida temporária após uma cirurgia, ou como uma solução a longo prazo em determinadas circunstâncias. Os cateteres podem ser intermitentes ou alojados no interior e estão ligados a um saco de drenagem fixado à pessoa ou a uma válvula que permite que o cateter seja esvaziado regularmente para um recipiente.

Um preservativo ou dispositivo de recolha deve ser colocado no pénis por um especialista, de forma folgada e esvaziado por um saco ou válvula.

Intervenções farmacológicas e cirúrgicas (sob certas condições)

Se a gestão básica tiver falhado e a incontinência prejudicar acentuadamente a qualidade de vida, devem ser consideradas outras intervenções e recomenda-se consultar um urologista. Isto inclui processos como o implante de uma malha, agentes dilatadores, ou um esfíncter artificial.

INCONTINÊNCIA DE URGÊNCIA

A incontinência de urgência é definida como perda involuntária de urina acompanhada de uma vontade forte de urinar. Tal como a incontinência urinária de esforço, a incontinência de urgência deve ser inicialmente tratada através de meios não invasivos. O maior factor de risco para a incontinência de urgência é o aumento de volume de um órgão (por ex. HPB) e uma cirurgia anterior.

ALTERNATIVAS DE TRATAMENTO

Estilo de vida

  • Não ingerir líquidos em demasia nem insuficientemente. Reduzir a ingestão de líquidos para diminuir a urina pode produzir uma maior irritação da bexiga e promover uma infecção.
  • Evitar a cafeína e bebidas gaseificadas, que podem irritar a bexiga, e bebidas alcoólicas.
  • Rever a medicação actual quanto a interacção ou efeitos iatrogénicos.
  • Reduzir o peso, que causa uma maior pressão abdominal, e parar de fumar, que causa maior tosse e a consequente perda de urina.
  • protecções para incontinência (em forma de penso ou cueca) podem ser utilizadas durante o diagnóstico e o tratamento, se os tratamentos não forem totalmente eficazes, e para aumentar a confiança durante períodos de stress.

Exercícios para os músculos do pavimento pélvico

Existem provas de que em alguns casos o reforço do pavimento pélvico pode ajudar a minimizar a incidência de perda de urina em homens com incontinência de urgência. O biofeedback e a electro-estimulação ajudam na execução de exercícios para os músculos do pavimento pélvico e idealmente devem ser recomendados por um fisioterapeuta ou especialista em incontinência.

Treino vesical ou da bexiga

O treino da bexiga é uma forma altamente eficiente de tratar a incontinência de urgência. A capacidade da bexiga é aumentada incrementalmente em pequenos passos controlados. A cooperação e automotivação do utente são importantes para assegurar o máximo sucesso.

Dispositivos médicos

O homem que sente uma vontade urgente de urinar pode usar produtos absorventes para incontinência concebidos para a anatomia masculina. Estes produtos poderão ser descartáveis ou reutilizáveis e apresentam várias formas e estilos, que incluem colectores de urina, bolsas e pensos parecidos com uma meia. Cada produto varia quanto à sua capacidade de absorção e conforto. É preferível consultar um especialista em incontinência para fazer uma avaliação das necessidades diárias e determinar os diferentes produtos mais apropriados para o utente.

Podem também ser utilizados outros produtos para a recolha de urina e para inibir o fluxo de urina, de modo a conter a perda em determinados casos. Cateteres e dispositivos para ajudar o homem nos exercícios para os músculos do pavimento pélvico ou para inibir a incontinência urinária de esforço podem ser adequados para alguns utentes para quem outros métodos de tratamento não são indicados. Os cateteres podem ser utilizados como uma medida temporária após uma cirurgia ou como solução a longo prazo. Os cateteres podem ser intermitentes ou alojados no interior e estão ligados a um saco de drenagem fixado à pessoa ou a uma válvula que permite que o cateter seja esvaziado regularmente para um recipiente. Os cateteres interiores suprapúbicos podem ser introduzidos cirurgicamente através do abdómen, em vez de através da uretra. Os utentes ou os prestadores de cuidados podem ser treinados para os mudar e limpar. Um preservativo masculino ou dispositivo de recolha deve ser colocado no pénis por um especialista, de forma folgada e esvaziado por um saco ou válvula.

Outras intervenções (sob certas condições)

Se estes tratamentos não forem eficazes após aproximadamente 3-4 meses, deve fazer-se uma reavaliação e considerar-se outra intervenção e consulta médica. As opções disponíveis através de um fisioterapeuta especializado incluem outras técnicas físicas tais como electro-estimulação e biofeedback.

Existe também a intervenção farmacológica sob a forma de medicamentos antimuscarínicos ou anticolinérgicos. Podem também ser utilizados a neuromodulação, o auto-aumento, o aumento da bexiga e a diversão urinária.

INCONTINÊNCIA MISTA

É utilizado o termo incontinência mista quando existem sintomas de incontinência de urgência e incontinência de esforço. O Comité Internacional de Incontinência da OMS recomenda que sejam tratados primeiro os sintomas predominantes. Contudo, a primeira linha de tratamentos tanto para a incontinência de urgência como para a incontinência de esforço são medidas não evasivas ao nível do estilo de vida, treino da bexiga e exercícios para os músculos do pavimento pélvico. Se estas técnicas falharem ou tiverem um sucesso limitado, poderão ser administrados medicamentos para os sintomas remanescentes mais proeminentes. Se isso falhar, deve ser consultado o médico especialista para prosseguir a investigação.

GOTEJAMENTO PÓS-MICÇÃO

O gotejamento pós-micção é tratado combinando exercícios para os músculos do pavimento pélvico para reforçar o esfíncter e com a ordenha uretral depois do esvaziamento da bexiga.

OUTRAS FORMAS DE INCONTINÊNCIA

Existem outras formas de incontinência que poderão não se enquadrar numa das categorias acima.

  • Incontinência por extravasamento: Como o nome indica, existe um fluxo constante de urina, como que se a bexiga estivesse a 'extravasar'. É muitas vezes causada por uma obstrução mecânica, como oclusão intestinal, aumento do volume da próstata, lesões nervosas, ou anomalias na uretra.
  • Incontinência funcional: Impossibilidade de chegar ao WC para urinar, devido a incapacidade (física ou mental) ou enfermidade.