Mitos e realidades dos cuidados familiares

Cuidar de um familiar costuma vir acompanhado de ideias erradas, como “devo conseguir dar conta de tudo” ou “pedir ajuda é egoísta”. Estes mitos geram culpa e stress. Neste artigo, revemos as crenças mais comuns e comparamos com a realidade, com base na experiência de cuidadores e em recursos especializados [1][2][3], para o ajudar a cuidar melhor sem se esquecer de si.

Mito: “Consigo fazer tudo sozinho(a)”

Muitos cuidadores pensam que, se realmente amam o seu familiar, devem conseguir fazer tudo sem se queixarem nem pedir ajuda. Esta crença aparece com frequência em testemunhos de cuidadores e em recursos de divulgação sobre o cuidado informal [1][2].

Realidade

O cuidado a longo prazo pode incluir:

  • apoio na higiene e na mobilidade
  • gestão de consultas médicas e medicação
  • vigilância quase constante
  • carga emocional e preocupação diária

Assumir tudo isto sozinho aumenta o risco de stress, esgotamento e problemas de saúde física e emocional [1]. Pedir ajuda não significa que ama menos o seu ente querido: significa que quer cuidar melhor e durante mais tempo.

Conselho prático:

Faça uma lista de tarefas e pense no que poderia delegar a familiares, amigos, organizações de voluntariado ou serviços profissionais. Muitos cuidadores reconhecem que pedir ajuda foi o primeiro passo para se sentirem menos ultrapassados [1].

Mito: “Só os profissionais conseguem cuidar bem”

Outro mito frequente é acreditar que, se não for enfermeiro/a, médico/a ou auxiliar, não conseguirá prestar bons cuidados ao seu familiar. Esta ideia aumenta a insegurança e o medo de “não estar à altura”.

Realidade

Os estudos sobre cuidado familiar destacam que cuidadores não profissionais podem prestar um apoio muito valioso quando contam com:

  • informação básica sobre a doença ou a situação do seu familiar,
  • instruções claras de profissionais de saúde,
  • apoio emocional e prático [3].

Não se espera que seja um profissional de saúde: o seu papel é acompanhar, ajudar nas atividades diárias e ser um apoio emocional de referência [3].

Conselho prático:

Peça que lhe expliquem com calma o que tem de fazer (mobilizações, medicação, higiene). Não tenha receio de fazer perguntas: os profissionais contam consigo como parte da equipa de cuidados [3].

Mito: “Cuidar significa sacrificar completamente a minha vida pessoal”

É comum pensar que, para cuidar “bem”, é preciso renunciar ao lazer, às relações sociais, ao descanso ou até ao trabalho. Esta crença aparece em muitos relatos de cuidadores que se sentem obrigados a “viver apenas para cuidar” [2].

Realidade

A evidência e a experiência mostram que:

  • o isolamento social e a renúncia completa à vida pessoal aumentam o risco de depressão e esgotamento;
  • manter algumas atividades próprias (tempo livre, passatempos, contacto com amigos) melhora o bem-estar do cuidador e a qualidade do cuidado [2].

Cuidar não deveria significar desaparecer como pessoa.

Conselho prático:

Reserve pequenos momentos todos os dias ou todas as semanas para si: um passeio, uma chamada, um café com alguém de confiança. Estudos e guias de apoio insistem que estes espaços protegem a sua saúde mental e a sua capacidade de continuar a cuidar [2].

Mito: “Se aceito ajuda, significa que estou a falhar”

A culpa é uma emoção muito frequente entre cuidadores. Muitos sentem que, se aceitarem ajuda externa (família, amigos, serviços profissionais, centros de dia), estão a “abandonar” ou a “falhar” com o seu ente querido [1][2].

Realidade

Recursos especializados em cuidado familiar sublinham que:

  • pedir e aceitar ajuda não o/a torna um pior cuidador;
  • partilhar a carga reduz a sobrecarga e o risco de problemas de saúde;
  • contar com apoios favorece que o cuidado se mantenha ao longo do tempo [1][2].

Conselho prático:

Pergunte-se: “O que mudaria se tivesse um pouco de ajuda?”. A maioria dos cuidadores que aceitaram apoio reconhece que isso lhes permitiu continuar a cuidar com mais calma e paciência [1].

Mito: “A ajuda ao domicílio ou o apoio externo é só para casos muito graves”

Existe a ideia de que pedir ajuda profissional em casa, contratar serviços de descanso do cuidador (respiro) ou recorrer a centros de dia só se justifica quando a situação é extrema.

Realidade

Organizações de apoio domiciliário e recursos de apoio mostram que a ajuda profissional pode:

  • complementar o cuidado familiar desde fases iniciais,
  • reduzir o stress do cuidador,
  • prevenir crises e hospitalizações [4][5].

Não é necessário esperar que a situação se torne insustentável para pedir apoio.

Conselho prático:

Informe-se sobre os recursos disponíveis na sua zona (serviços sociais, associações, empresas de cuidados, centros de dia). Muitos cuidadores asseguram que ter contado com “um pouco de ajuda” a tempo fez uma grande diferença [4][5].

Perguntas frequentes

Sim. Muitos cuidadores sentem essa pressão, mas é um mito muito difundido. Cuidar implica muitas tarefas e responsabilidades, e ninguém consegue assumir tudo sem correr o risco de se esgotar [1][2].
De modo nenhum. Pedir apoio é uma forma de proteger a sua saúde física e emocional. Os cuidadores que partilham tarefas costumam sentir-se menos ultrapassados e conseguem oferecer um cuidado mais estável [1][3].
Não. Manter algum tempo para si —descanso, lazer, relações— não só é compatível com o cuidado, como também ajuda a prevenir o stress e a sobrecarga emocional [2][3].
Quando começa a sentir-se ultrapassado(a), quando o cuidado exige supervisão frequente ou quando as tarefas são fisicamente exigentes. Não é preciso esperar que a situação se torne insustentável para pedir apoio [1][3].
Observe que crenças lhe geram culpa ou pressão, partilhe-as com alguém de confiança e aceite pequenos apoios. Informar-se e falar com outros cuidadores ajuda a ver o cuidado de forma mais realista e sustentável [2][3].

Descobre mais informações para cuidadores

[1] MD Anderson Cancer Center. 7 myths about caregiving you shouldn’t believe. Leia aqui

[2] L’Appui pour les proches aidants. Ten caregiver myths. Leia aqui

[3] North Dakota State University. Myths & Facts About Family Caregiving. FS686. Leia aqui

[4] Visiting Angels. 4 Home Care Myths and Facts You Need to Know. Leia aqui

[5] Golden Harmony Home Care. Homecare Myths vs. Reality: What You Need to Know. Leia aqui